A dependência cerebral da cor
Já tratamos da “independência da cor” dentro do aspecto histórico, de como ela passou a ser, por si só, um elemento de expressão artística, desvinculada do desenho e da pintura clássica.
Citamos inclusive Goethe e seu Esboço de uma teoria das cores (Zur Farbenlehre – 1810). Para o grande poeta, o estudo da cor devia ser compreendido na sua totalidade. Ele mesmo esperava que sua contribuição viesse ampliar seu conhecimento por outros estudiosos e pesquisadores, como de fato aconteceu e continua acontecendo. Certamente, a doutrina de Goethe deu respaldo às primeiras manifestações de independência da cor, surgida inicialmente com o impressionismo, onde o arranjo cromático criava a ilusão de atmosfera e espaço, baseado no efeito de complementaridade, descrito por Goethe e depois por Chevreul. Os impressionistas conheciam esses efeitos. Depois veio o pós-impressionismo que indiretamente tem a ver com a retícula das artes gráficas e a pixelização digital da imagem nos meios de comunicação eletrônicos de hoje.
A Bauhaus, que reuniu artistas como Itten, Kandinsky, Klee, Albers e outros do início do modernismo, adotou seu estudo de forma sistemática, dando à cor um patamar de maior liberdade ainda. Mas nisso tudo está o mais importante aspecto da cor: sua dependência cerebral! Vamos tratar, agora, de um pouco da percepção da cor e como o fenômeno se processa em nosso cérebro. Atualmente, devido aos mais recentes avanços dos sistemas de escaneamento cerebral, se conhece um pouco mais como funciona nossa massa encefálica.
Na publicação “O livro do cérebro” de Rita Carter, edição em português da Editora Duetto, p. 94, encontramos a seguinte informação: Um modo de pensar a percepção visual é vê-la como o produto final de uma longa e complexa linha de montagem. O processo de construção começa quando a informação que chega dos olhos – o material bruto – atinge o córtex visual primário na parte posterior do cérebro (…) passando por áreas corticais e subcorticais. Cada uma responde criando a atividade neural que gera aspectos da visão, como cor, forma, localização e movimento. Por fim, os diversos elementos são unidos e nos tornamos conscientes de uma visão com significado.
Cor é uma sensação sujeita a mudanças de percepção, dependendo do seu entorno e seu contexto. A leitura feita pelo olho pode ser correta, mas na sensação da visão podem ocorrer erros de interpretação. Variações regionais também podem influenciar os significados, principalmente quanto aos aspectos culturais entre os povos do Ocidente e do Oriente. Uma outra área que tem muito a ver com o cérebro é a dos sonhos, porém muito mais misteriosa. Nos sonhos, podemos ver cores, o que contraria o postulado dos físicos de que a cor depende da luz, sem a qual ela não existe. Acredito mesmo que sensações oriundas da cor nos afeta até mesmo até quando sonhamos. Por outro lado, é certo também que é, devido ao nosso aprendizado, que passamos a perceber e a “descrever a cor”, como fazemos com as demais sensações. O que sentimos depende sempre dos nossos recursos de linguagem. Como sempre afirmo, “a cor só existe porque somos os percebedores dela”.
Para mim, a percepção visual vai sendo montada ao logo de nossa vida em páginas prontas para consulta, como num website. Quando o estímulo da luz – ou o estímulo puramente mental – estabelece um certo “link” em função dos “imputes” recebidos, captamos a página apropriada, que se abre em nossa mente. Caso ela não exista, a mesma é criada instantaneamente. Nesse processo, ocorre também de “pescarmos” páginas erradas. Já me ocorreu ter visto um azul típico dos produtos da Nívea, que o cérebro corrigiu prontamente para o certo, que era o azul dos produtos da HP.
Os artistas e os comunicadores sabem que o poder das cores mexe com nossa imaginação e sentimentos, como tanto buscaram os construtores do modernismo. Hoje se usa a cor pelo seu valor e significado intrínseco e pela sensação de belo que ela pode nos dar. Mas é sempre um processo virtual, que só ocorre em nossa mente!
* Nelson Bavaresco – designer gráfico e pesquisador. Ministra cursos e treinamentos sobre Teoria e História das Cores – Linguagem e Significado da Cores – Harmonia e Mistura de Cores. É autor do Sistema de Cores Cecor. Mais detalhes no site: www.sistemacecor.com.br.
Matéria retirada do site: www.mundocor.com.br